Uma relação de amor e ódio

A relação que estabelecemos com a nossa escrita raramente é tranquila, ainda mais quando estamos escrevendo um texto há anos. Mudamos ao longo do tempo, passamos por altos e baixos, tendo como companheira inseparável aquela dissertação ou tese; agarrados àquele livro que sonhamos em publicar.


Minha tese me viu passar por muita coisa. Foram quase cinco anos escrevendo e, nesse período, a amei e a adiei, acreditei que a defenderia e achei que tudo aquilo era uma grande perda de tempo. Insegurança, medo, falta de apoio, a vontade de realizar um sonho versus a necessidade de sobrevivência, de pagar os boletos que chegam todos os meses sem dó e nem piedade. No fim, deu certo.


A batalha para quem quer ser escritor no Brasil é épica. Trabalhar durante o dia, ler e escrever à noite não é moleza não. Uma vez ouvi que estudar requer o ócio: uma palavra latina que significa ter uma folga, um tempo livre que, venhamos e convenhamos, nem é tão livre assim, já que é um tempo essencial para que possamos produzir algo de qualidade.


Escrever é, na verdade, reescrever incontáveis vezes até um dia quase gritar:


NÃO AGUENTO MAIS ESSE TEXTO. JÁ DECOREI CADA PALAVRA.


Mas, no dia seguinte, após extravasar, de pensar em jogar tudo para o alto, acabar com aquele relacionamento e mudar de vida, voltar para o texto amado, para o projeto de vida, para o sonho.

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